segunda-feira, outubro 29, 2007

Poema no casino on-line

Salta e ressalta entre alumino e fumo

Perfumes intensos, luzes filtradas

Gente ébria, gente marcada.

Salta e ressalta parando sem se quedar

Nervos em franja,

Mentes a tamborilar.

Que se fique, que se estique

Entre o preto e o vermelho

Não há como ganhar.

Hoje tudo é já diferente, nem o tilintar da bola na roleta, nem o perfume a cigarros ou almiscar, nem as luzes filtradas, nem os dourados dignos de altar.
Bem vistas as coisa não será bem assim. Há muito que inventar nos pixeis do ecran e, como sempre, pouco a ganhar.

Jogar online via "online casino bluebook". Poema sob patrocínio do "online casino bluebook" também conhecido por "onlinecasinobluebook.com".

sábado, outubro 22, 2005

Clã - 13 anos

Pelas letras de alguns dos melhores escritores do país, pela diversidade de variações de pop-rock que testam, pelo grão da voz da vocalista (e tem mesmo grão!) este é, neste momento e de há uns anos a esta parte (desde o fim dos Trovante, provavelmente), o meu grupo português favorito no activo - (sorry about that Madredeus).

Um grupo que, como muito poucos, em português, nos conduziram a imensas variações de retratos de nós mesmos, visitando os nossos eternos problemas de expressão da alma lusa e universal. Tudo sem fórmulas que se estafam ao segundo ou terceiro álbum, fazendo um percurso inconfundível.

Hoje, 13 anos passados, surpreende-me ouvir o primeiro álbum. 13 anos? Não é possível, está fresquinho como no primeiro dia.

Do blogue da Patrícia, saco a letra que Manuela Azevedo diz ter sido a primeira que «(...) as pessoas levaram para as suas vidas (...)». Comigo foi assim.



Penamacor - pormenor da torre

Só pra dizer que te Amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

Só pra dizer que te Amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.

E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

E é tão difícil dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Pra ficar mais perto, bem mais de perto.
Ficar mais perto, bem mais de perto
.
 



Letra de Carlos Tê.

domingo, julho 03, 2005

Mineração
"Tenho o oiro e não posso
Arrancá-lo do cerne da montanha!
O filão de lirismo é um verso esquivo
Que atravessa a dureza do granito.
Rompo, perfuro dia e noite, e apenas
Cavo mais funda a própria sepultura...
Toupeira cega, mas obstinada,
Vou morrendo na luta
Que desejava ver iluminada."


Miguel Torga

domingo, janeiro 30, 2005

E com um búzio nos olhos claros
Vinham do cais, da outra margem
Vinham do campo e da cidade
Qual a canção? Qual a viagem?

Vinham p’rá escola. Que desejavam?
De face suja, iluminada?
Traziam sonhos e pesadelos.
Eram a noite e a madrugada.

lisboa_outra_margem.jpg
Vinham sozinhos com o seu destino.
Ali chegavam. Ali estavam.
Eram já velhos? Eram meninos?
Vinham p’rá escola. O que esperavam?

Vinham de longe. Vinham sozinhos.
Lá da planície. Lá da cidade.
Das casas pobres. Dos bairros tristes.
Vinham p’rá escola: a novidade.

E com uma estrela na mão direita
E os olhos grandes e voz macia
Ali chegaram para aprender
O sonho a vida a poesia.


Maria Rosa Colaço

sexta-feira, setembro 17, 2004

Beach at Scheveningen in Stormy Weather


Viagem

(1962)

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).

Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga

sexta-feira, julho 02, 2004

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades


Sophia de Mello Breyner Andresen


terça-feira, junho 01, 2004

Anjos na América

Cantando Peter Gabriel e Laurie Anderson:

Excellent Birds

flying birds
excellent birds
watch them fly, there they go
falling snow
excellent snow
here it comes. watch it fall

long words
excellent words
I can hear them now

this is the picture, this is the picture
this is the picture, this is the picture

I'm sitting by the window
watching the snow fall
I'm looking out
and I'm moving, turning in time
catching up. moving in
jump up! I can land on my feet. look out!

this is the picture, this is the picture
this is the picture, this is the picture

looking out. watching out
when I see the future I close my eyes
I can see it now

I see pictures of people, rising up
pictures of people, falling down
I see pictures of people
they're standing on their heads, they're ready
they're looking out, look out!
they're watching out, watch out!
they're looking out, look out!
they're watching out, watch out!

I see pictures of people
I see pictures of people

domingo, março 28, 2004

In Pursuit of Happiness

Hey, I'm not the type
To say one thing and do another
And if it's all right I'd kind
Of like to be your lover
'Cos when you're with me I can't help but be
So desperately
Uncontrollably Happy!

And hey, I'm not the kind
To fall in love without good reason
And if that's a crime
Then baby I'm committing high treason
'Cos when you're with me
I'm absolutely
And totally
Quite uncontrollably Happy!

And hey, I'm not so blind
That I can't see where we're all going
And it's no fault of mine
If humankind reaps what it is sowing
Just as long as we are together
Forever
I'll never be anything other than Happy!

Hey, don't be suprised, if millions die in plague and murder
True happiness lies beyond your fries and happy burger


Neil Hannon - The Divine Comedy - in "A SHORT ALBUM ABOUT LOVE"

quarta-feira, janeiro 28, 2004

Uma canção familiar sobre uma terra de adufeiras

Penedos de Monsanto com a charneca em fundo, ali onde o Alentejo termina e a Beira Baixa começa


Serras, veredas, atalhos,
Estradas e fragas de vento,
Onde se encontram retalhos
De vidas em sofrimento

Retalhos fundos nos rostos,
Mãos duras e retalhadas
Pelo suor do desgosto,
Retalha as caras fechadas

O caminho que seguiste,
Entre gente pobre e rude,
Muitas vezes tu abriste
Uma rosa de saúde


[refrão]
Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão

As vidas que defendeste,
E o pão que repartiste,
São lágrimas que tu bebeste
Dos olhos de um povo triste

E depois de tanto mundo,
Retalhado de verdade,
Também tu chegaste ao fundo
Da doença da cidade

Da que não vem na sebenta,
Daquela que não se ensina,
Da pobreza que afugenta
Os barões da medicina

Tu sabes quanto fizeste,
A miséria não segura,
Nem mesmo quando lhe deste
A receita da ternura

[refrão]

[refrão]


Retalhos da Vida de um Médico, poema de Ari dos Santos, musicado por Tozé Brito e cantado por Carlos do Carmo como música-tema de uma adaptação televisiva do romance homónimo de Fernando Namora retirado de empréstimo daqui (a visitar!!)
Hush, my darling, don't fear, my darling


Lala kahle [Sleep well]

In the jungle, the mighty jungle
The lion sleeps tonight
In the jungle, the mighty jungle
The lion sleeps tonight

(Chorus)
Imbube

Ingonyama ifile [The lion's in peace]
Ingonyama ilele [The lion sleeps]
Thula [Hush]

Near the village, the peaceful village
The lion sleeps tonight
Near the village, the peaceful village
The lion sleeps tonight

(Chorus)

Ingonyama ilele [The lion sleeps]

Hush, my darling, don't fear, my darling
The lion sleeps tonight
Hush, my darling, don't fear, my darling
The lion sleeps tonight

He, ha helelemama [He, ha helelemama]
Ohi'mbube [lion]

(Chorus)

Ixesha lifikile [Time has come]
Lala [Sleep]
Lala kahle [Sleep well]

Near the village, the peaceful village
The lion sleeps tonight
Near the village, the peaceful village
The lion sleeps tonight

(Chorus)

My little darling
Don't fear, my little darling
My little darling
Don't fear, my little darling

Ingonyama ilele [The lion sleeps]


Música popular Africana. Letra retirada daqui. A versão que tenho na memória é a de Brian Eno, em Agosto de 1975.
Infelizmente não tenho a gravação...
Rui MCB

sexta-feira, novembro 21, 2003

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill

As Minhas Ilusões:

Hora sagrada dum entardecer
De Outono, à beira-mar, cor de safira
Soa no ar uma invisível lira...
O Sol é um doente e enlanguescer...

A vaga estende os braços a suster,
Numa dor de revolta cheia de ira,
A doirada cobeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!

O Sol morreu... e veste luto o mar...
E eu vejo a urna de oiro, a balouçar,
À flor das ondas, num lençol de espuma.

As minhas Ilusões, doce tesoiro,
Também as vi levar em urna de oiro,
No mar da Vida, assim... uma por uma...


Florbela Espanca

Dedicado a Manuela Ferreira Leite

segunda-feira, outubro 13, 2003

Caroline, No

Where did your long hair go?
Where is the girl I used to know?
How could you lose that happy glow?

Oh, Caroline, no...

Who took that look away?
I remember how you used to say
You'd never change, but that's not true

Oh, Caroline, you break my heart,
I wanna go and cry,
It's so sad to watch a sweet thing die

Oh, Caroline, why?

Could I ever find in you again
Things that made me love you so much then
Could we ever bring 'em back, once they have gone

Oh, Caroline, no.


Brian Wilson & Tony Asher, Beach Boys, Album: Pet Sounds

terça-feira, outubro 07, 2003

Digging in The Dirt

Us, Peter Gabriel
Something in me, dark and sticky
All the time it's getting strong
No way of dealing with this feeling
Can't go on like this too long

This time you've gone too far
I told you

Don't talk back
Just drive the car
Shut your mouth
I know what you are
Don't say nothing
Keep your hands on the wheel
Don't turn around
This is for real
Digging in the dirt
Stay with me, I need support
I'm digging in the dirt
To find the places I got hurt
Open up the places I got hurt

The more I look, the more I find
As I close on in, I get so blind
I feel it in my head, I feel it in my toes
I feel it in my sex, that's the place it goes

I'm digging in the dirt
Stay with me I need support
I'm digging in the dirt
To find the places I got hurt
To open up the places I got hurt

Digging in the dirt
To find the places we got hurt


Peter Gabriel, "Us"

quarta-feira, setembro 24, 2003

There is a war

Há gritos que nunca hão-de ficar datados...


There is a war between the rich and poor,
a war between the man and the woman.
There is a war between the ones who say there is a war
and the ones who say there isn't.

Why don't you come on back to the war, that's right, get in it,
why don't you come on back to the war, it's just beginning.

Well I live here with a woman and a child,
the situation makes me kind of nervous.
Yes, I rise up from her arms, she says "I guess you call this love";
I call it service.

Why don't you come on back to the war, don't be a tourist,
why don't you come on back to the war, before it hurts us,
why don't you come on back to the war, let's all get nervous.

You cannot stand what I've become,
you much prefer the gentleman I was before.
I was so easy to defeat, I was so easy to control,
I didn't even know there was a war.

Why don't you come on back to the war, don't be embarrassed,
why don't you come on back to the war, you can still get married.

There is a war between the rich and poor,
a war between the man and the woman.
There is a war between the left and right,
a war between the black and white,
a war between the odd and the even.

Why don't you come on back to the war, pick up your tiny burden,
why don't you come on back to the war, let's all get even,
why don't you come on back to the war, can't you hear me speaking?

Leonard Cohen

sexta-feira, setembro 19, 2003

Fly on a Windshield.

There's something solid forming in the air,
And the wall of death is lowered in Times Square.
No-one seems to care,
They carry on as if nothing was there.
The wind is blowing harder now,
Blowing dust into my eyes.
The dust settles on my skin,
Making a crust I cannot move in
And I'm hovering like a fly, waiting for the windshield on the freeway.

"The Lamb Lies Down on Broadway Lyrics", Genesis, 1975

quarta-feira, setembro 17, 2003


Sweden

I would like to
Live in Sweden
When my work is done,
Where the snow lies
Crisp and even
'Neath the midnight sun.

Safe and
Clean and
Green and
Modern
Bright and breezy,
Free and easy.

Sweden,
Sweden,
Sweden,
In Sweden.

I am gonna
Live in Sweden,
Please don't ask me why,
For if I were to
Give a reason
It would be a lie.

Tall and
Strong and
Blonde and
Blue eyed
Pure and healthy,
Very wealthy.

Sweden,
Sweden,
Sweden,
In Sweden.

I'll grow wings and fly to Sweden
When my time is come.
Then at last my eyes shall see them -
Heroes everyone:
Ingmar Bergman,
Henrik Ibsen,
Karin Larsson,
Nina Persson.

Sweden,
Sweden,
Sweden
In Sweden.


The Divine Comedy in Fin de Siècle
PSsst.: Novo álbum talvez no ínicio de 2004 diz aqui.

sábado, setembro 13, 2003

DON'T TAKE YOUR GUNS TO TOWN

By John R. Cash
Recorded 8/13/58



A young cowboy named Billy Joe
Grew restless on the farm
A boy filled with wanderlust
Who really meant no harm
He changed his clothes and shined his boots
And combed his dark hair down
And his mother cried as he walked out;

Refrain:
"Don't take your guns to town, son
Leave your guns at home, Bill
Don't take your guns to town."

He sang a song as on he rode,
His guns hung at his hips
He rode into a cattle town,
A smile upon his lips
He stopped and walked into a bar and laid his money down
But his mother's words echoed again;

Refrain:
"Don't take your guns to town, son
Leave your guns at home, Bill
Don't take your guns to town."

He drank his first strong liquor then to calm his shaking hand
And tried to tell himself at last he had become a man
A dusty cowpoke at his side began to laugh him down
And he heard again his mother's words;

Refrain:
"Don't take your guns to town, son
Leave your guns at home, Bill
Don't take your guns to town."

Bill was raged and Billy Joe reached for his gun to draw
But the stranger drew his gun and fired before he even saw
As Billy Joe fell to the floor the crowd all gathered 'round
And wondered at his final words;

Refrain:
"Don't take your guns to town, son
Leave your guns at home, Bill
Don't take your guns to town."

domingo, setembro 07, 2003

Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entr os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário de Sá-Carneiro

sábado, agosto 16, 2003

O lado lunar

Não me mostres o teu lado feliz
A luz do teu rosto quando sorris
Faz-me crer que tudo em ti é risonho
Como se viesses do fundo de um sonho

Não me abras assim o teu mundo
O teu lado solar só dura um segundo
Não e por ele que te quero amar
Embora seja ele que me esteja a enganar

Toda a alma tem uma face negra
Nem eu nem tu fugimos à regra
Tiremos à expressão todo o dramatismo
Por ser para ti eu uso um eufemismo
Chamemos-lhe apenas o lado lunar
Mostra-me o teu lado lunar

Desvenda-me o teu lado malsão
O túnel secreto a loja de horrores
A arca escondida debaixo do chão
Com poeira de sonhos e runas de amores

Eu hei-de te amar por esse lado escuro
Com lados felizes eu já não me iludo
Se resistir à treva é um amor seguro
à prova de bala à prova de tudo

[refrão]

Mostra-me o avesso da tua alma
Conhecê-lo e tudo o que eu preciso
Para poder gostar mais dessa luz falsa
Que ilumina as arcadas do teu sorriso

Não é bem por ela que te quero amar
Embora seja ela que me vai enganar
Se mostrares agora o teu lado lunar
Mesmo às escuras eu não vou reclamar


Carlos Tê (musicado por Rui Veloso)

quinta-feira, agosto 14, 2003

Strange Angels (Laurie Anderson)

They say that heaven is like TV
A perfect little world
that doesn't really need you
And everything there
is made of light
And the days keep going by
Here they come Here they come
Here they come.

Well it was one of those days larger than life
When your friends came to dinner
and they stayed the night
And then they cleaned out the refrigerator -
They ate everything in sight
And then they stayed up in the living room
And they cried all night

Strange angels - singing just for me
Old stories - they're haunting me
This is nothing
like I thought it would be.

Well I was out in my four door
with the top down.
And I looked up and there they were:
Millions of tiny teardrops
just sort of hanging there
And I didn't know whether to laugh or cry
And I said to myself:
What next big sky?

Strange angels - singing just for me
Their spare change falls on top of me
Rain falling Falling all over me
All over me
Strange angels - singing just for me
Old Stories - they're haunting me
Big changes are coming
Here they come
Here they come.

E.

sexta-feira, agosto 08, 2003

Dois poemas 100 Nada, como todos.

Aqui e aqui.

sábado, agosto 02, 2003

Para ninar...

Dorme, dorme meu menino
Que a mãezinha já lá vem.
Foi lavar os cueirinhos à fontinha de Belém.

Dorme, dorme meu menino
Foi-se o Sol, nasceu a Lua.
Qual será o teu destino, que sorte será a tua.


(Popular)

segunda-feira, julho 28, 2003

PROBLEMA DE EXPRESSÃO


Só pra dizer que te Amo,
Nem sempre encontro o melhor termo,
Nem sempre escolho o melhor modo.

Devia ser como no cinema,
A língua inglesa fica sempre bem
E nunca atraiçoa ninguém.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

Só pra dizer que te Amo
Não sei porquê este embaraço
Que mais parece que só te estimo.

E até nos momentos em que digo que não quero
E o que sinto por ti são coisas confusas
E até parece que estou a mentir,
As palavras custam a sair,
Não digo o que estou a sentir,
Digo o contrário do que estou a sentir.

O teu mundo está tão perto do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

E é tão difícil dizer amor,
É bem melhor dizê-lo a cantar.
Por isso esta noite, fiz esta canção,
Para resolver o meu problema de expressão,
Pra ficar mais perto, bem mais de perto.
Ficar mais perto, bem mais de perto.


Carlos Tê

sexta-feira, julho 25, 2003

Tarde no mar



A tarde é de oiro rútilo: esbraseia.
O horizonte: um cacto purpurino.
E a vaga esbelta que palpita e ondeia,
Com uma frágil graça de menino,


Pousa o manto de arminho na areia
E lá vai, e lá segue o seu destino!
E o sol, nas casas brancas que incendeia,
Desenha mãos sangrentas de assassino!


Que linda tarde aberta sobre o mar!
Vai deitando do céu molhos de rosas
Que Apolo se entretém a desfolhar...


E, sobre mim, em gestos palpitantes,
As tuas mãos morenas, milagrosas,
São as asas do sol, agonizantes...


Florbela Espanca

quinta-feira, julho 24, 2003

Regresso ao imaginário infantil...


No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada.
Uns por verem rir os outros
E outros sem ser por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
De Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormnindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão


Ferando Pessoa

quarta-feira, julho 23, 2003

"A Portuguesa"

Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal !
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há-de guiar-te à vitória !

Às armas, às armas !
Sobre a terra sobre o mar.
Às armas, às armas !
Pela Pátria lutar !
Contra os canhões marchar, marchar !

Saudai o sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte. Desfralda a invicta Bandeira,
À luz viva do teu céu !
Brade a Europa à Terra inteira:
Portugal não pereceu !
Beija o solo teu jucundo
O Oceano, a rugir d'amor,
E o teu braço vencedor
Deu Mundos novos ao Mundo !

Às armas, às armas !
Sobre a terra sobre o mar.
Às armas, às armas !
Pela Pátria lutar !
Contra os canhões marchar, marchar !


Poesia de H. Lopes de Mendonça
Música de Alfredo Keil

segunda-feira, julho 21, 2003

SODADE

Quem mostra' bo
Ess caminho longe?
Quem mostra'bo
Ess caminho longe?

Ess caminho
Pa Sao Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Si bô 'screvê' me
'M ta 'screvê be
Si bô 'squecê me
'M ta 'squecê be

Até dia
Qui bô voltà

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Luis Morais - Amandio Cabral

domingo, julho 20, 2003


Ao Fernando Alves da TSF que de tanto o ler me encantou




Não sei nada


Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura.
Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras as palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora «pássaro» seja uma das palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de se ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como não sei.


Ruy Belo
A melhor forma de mostrar um país abreviado, sem lhe perder o tutano, não será através da poesia?

Torga sobre Camões

Lápide

Luís Vaz de Camões.
Poeta infortunado e tutelar.
Fez o milagre de ressuscitar
A Pátria em que nasceu.
Quando, vidente, a viu
A caminho da negra sepultura,
Num poema de amor e de aventura
Deu-lhe a vida
Perdida.
E agora,
Nesta segunda hora
De vil tristeza,
Imortal,
É ele ainda a única certeza
De Portugal.

sábado, julho 19, 2003

The Barry Williams Show

let’s go

one man at the window
one girl at the bar
saw that look of recognition
when they know just who you are
i seen you on the tv
i seen you on that show
where you make the people crazy
and then you let them go

before the show we calm them
we sympathise, we care
and the hostile folk we keep apart
‘til the red light says 'on air’
did you see our leather lovers
all tied up to the chair
did you catch those child molesters
no one else goes there

what a show, the barry williams show
what a show,
dysfunctional excess
is all it took for my success
the greater pain that they endure
the more you know the show has scored
its showtime

got the reputation of a surgeon
cos they cannot feel the cut
it looks so very simple
but it really is an art
they call our studio 'the hospital'
making money from the sick
we let people be themselves
there is no other trick

'my lover stole my girlfriend'
'i keep beating up my ex'
'i want to kill my neighbour'
'my daughter's selling sex'

'my s/m lover hurt me'
'my girl became a man'
'i love my daughter's rapist'
'my life's gone down the pan'

what a show, the barry williams show
the barry williams show
dysfunctional excess
is all it took for my success
and when the punches start to fly
the ratings always read so high
its showtime

‘that girl has got no scruples
not a wrinkle on her face
you would not believe the plot she concieved
so they'd let her take my place
well, no man is an island
no man is a sea
but this display of emotion
is all but drowning me

what a show, oh what a show
on my show, the barry williams show
it’s my show
what a show
dysfunctional excess
is all it took for my success

the best tv you’ve ever seen
where people say the things they really mean
I hear my name, i hear them roar
for the one more time i take the floor
just one more barry williams show
we’re gonna take you where you want to go it’s showtime

come on down
come on down

Peter Gabriel

sexta-feira, julho 18, 2003

Rádio Macau

Amanhã é Sempre Longe Demais

P'la janela
mal fechada
entra já a luz do dia
Morre a sombra
desejada
duma esperança fugidia
Foi uma
noite sem sono
Entre saliva e suor
Com um travo
de abandono
e gosto a outro sabor

Diz-me até amanhã
que tem de ser que te vais
Só que amanhã sabes bem
é sempre longe demais

P'la janela
mal fechada
chega a hora do cansaço
Vai-se o tempo desfiando
em anéis de fumo baço

Acendo mais um cigarro
Invento mil ideais
Porque amanhã sei-o bem
é sempre longe demais

quinta-feira, julho 17, 2003

Ó da Guarda!

Anjinho da guarda
minha boa companhia
Guardai a minha alma
de noite e de dia.


Dedicado ao "depósito obrigatório" da internet portuguesa

quarta-feira, julho 16, 2003

Quem cantou estes versos populares?
Saudosa Maloca

Si o sinhô num tá alembrado
Dá licensa di eu contá
Qui aqui aonde agora istá
Esse adifício arto
Era uma casa véia
Um palacete assobradado
Foi aqui seu moço
Qui eu, Mato Grosso e Joca
Construímo nossa maloca


Mais um dia
Nóis nem pode si alembrá
Veio os home cas ferramenta
O dono mandô derrubá
Peguemos tudo as nossas coisa
E fumos pro meio da rua
Apriciá a demolição
Qui tristeza qui nóis sintia
Cada táuba qui caía
Doía no coração


Mato grosso quis gritá
Mais em cimam eu falei
Os home tá cá razão
Nóis arranja ôtro lugar
Só si conformemos
Condo Joca falô
Deus dá o frio
Conforme o cobertô
E hoje nóis pega paia
Nas grama dos jardim
E pr'á isquecê
Nóis cantemos assim


Saudosa maloca, maloca quirida
Din-din-donde nóis passemos
Dias filiz di nossas vida...

terça-feira, julho 15, 2003

Anda muito "negro" este blog

Mas de facto com tantas ausências globais de que nos tem chegado notícia nos últimos dias ficou o espírito a jeito para recordar alguma beleza inspirada em outras formas de deixar de ser.
A Morte saiu à  rua


A morte
Saiu à rua
Num dia assim
Naquele
Lugar sem nome
Pra qualquer fim

Uma
Gota rubra
sobre a calçada
Cai

E um rio
De sangue
Dum
Peito aberto
Sai

O vento
Que dá nas canas
Do canavial

E a foice
Duma ceifeira
De Portugal
E o som
Da bigorna
Como
Um clarim do céu

Vão dizendo
em toda a parte
O pintor morreu

Teu sangue,
Pintor, reclama
Outra morte
Igual

Só olho
Por olho e
Dente por dente
Vale


À lei assassina
À morte
Que te matou

Teu corpo
Pertence à terra
Que te abraçou

Aqui
Te afirmamos
Dente por dente
Assim


Que um dia
Rirá melhor
Quem rirá
Por fim


Na curva
Da estrada
Há covas
Feitas no chão


E em todas
Florirão rosas
Duma nação


José Afonso

Para mais José Afonso escrito, ir aqui.

segunda-feira, julho 14, 2003

A última do primeiro...

Foi por aqui que me apaixonei pel'Os Lusiadas...

(...)No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida!
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tanta necessidade avorrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?


Luis Vaz de Camões
Se houvesse degraus na terra...


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.


Herberto Helder

P.S.: Alguns amigos dizem-no o melhor entre os melhores dos poetas portugueses que ainda sonham sonhos novos.
Mal o conheço...
Há algumas páginas bonitas com poemas de Herberto Helder. Recomendo uma simples pesquisa no Google para começar.

domingo, julho 13, 2003

III Aforismos


I. Em arte é dificil dizer-se algo tão bom como: nada dizer.

II. Nada é mais difícil do que não nos iludirmos a nós próprios.

III. No pensamento há também uma época para o cultivo e uma época de colheita.


Ludwig Wittgenstein

sábado, julho 12, 2003

Quase





Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tude se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entr os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

..............................................................

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário de Sá-Carneiro

Este e mais uns (poucos) poemas podem encontrar-se aqui.
É impressionante a quantidade de páginas em alemão, português do Brasil e outras línguas em que aparece este nosso poeta...

Mais um para terminar...

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:

Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.


Bom fim de semana!

sexta-feira, julho 11, 2003

E para terminar a triologia...

Beijos

Beijos,
Ainda quero mais beijos teus

Beijos,
Para satisfazer os meus

Beijos,
Nem que sejam de falsidade

Beijos,
Melhor que se fossem de verdade


Cartola

Para mais Cartola e outros fui aqui.

quinta-feira, julho 10, 2003

Ainda sob o signo do Brasil... (a pedido de várias famílias substitui-se o excerto pela versão integral)

O Navio Negreiro (act)


I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento...
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...
..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pávido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.


II


Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Itália o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traição,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa pátrias glórias,
Lembrando, orgulhoso, histórias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fídias talhara,
Vão cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu ...
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu! ...


III


Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!
É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!


IV


Era um sonho dantesco... o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar de açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais ...
Se o velho arqueja, se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
Qual um sonho dantesco as sombras voam!...
Gritos, ais, maldições, preces ressoam!
E ri-se Satanás!...


V


Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados
Que não encontram em vós
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem são? Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cúmplice fugaz,
Perante a noite confusa...
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus...
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe... bem longe vêm...
Trazendo com tíbios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N'alma — lágrimas e fel...
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no país,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis...
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus ...
... Adeus, ó choça do monte,
... Adeus, palmeiras da fonte!...
... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...
Depois, o oceano de pó.
Depois no horizonte imenso
Desertos... desertos só...
E a fome, o cansaço, a sede...
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p'ra não mais s'erguer!...
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leão,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d'amplidão!
Hoje... o porão negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar...
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder...
Hoje... cúm'lo de maldade,
Nem são livres p'ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidão.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro... ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!...
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrão?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! ...


VI


Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!


Antonio de Castro Alves

O poema foi retirado daqui, vale apena dar uma espreitadela.
Mãos Dadas


Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, julho 09, 2003

O Primeiro Gomo da Tangerina


Todos vieram
ver a menina
ao primeiro gomo de tangerina
menina atenta
não experimenta
sem primeiro
saber do cheiro
o sabor dos lábios
gestos sábios

Fruta esquisita
menina aflita
ao primeiro gomo de tangerina
amarga e doce
como se fosse
essa hora
em que chora
e depois dobra o riso
e assim faz seu juízo

Sumo na vida
é o que eu te desejo
um beijo um beijo

Ah, que se lembre
sempre a menina
do primeiro gomo de tangerina
p'la vida dentro
é esse o centro
da parcela da vitamina
que a faz crescer sempre menina

A terra é grande
é pequenina
do tamanho apenas da tangerina
quem mata e morra
nunca percorre
os caminhos do que há de melhor
nesse sumo
a vida, gomo a gomo

Sumo na vida
é o que eu te desejo
rumo na vida
um beijo
um beijo

Letra: Sérgio Godinho

Afinal o Instituto Camões anda a fazer alguma coisa...
Desculpem a falsa actualização: ao blog está a ser submetido a uma experiência pouco científica!

segunda-feira, julho 07, 2003

Selecção poesia

Então e que tal uma sugestão de poesia de um leigo?
Vou me basear no popular, no musicado, e tomar de empréstimo dos autores que divulguem a sua poesia livremente na Net.
É um pequeno lugar para reler o que muitas vezes mal se ouve dando uma hipótese a essa poesia de nos chegar por si.

Leiam este e digam lá se o mundo não parece muito pequeno.

AS COISAS

letra de Arnaldo Antunes
música de Gilberto Gil
1993

As coisas têm
Peso, massa, volume
Tamanho, tempo
Forma, cor
Posição
Textura, duração
Densidade
Cheiro
Valor
Consistência
Profundidade, contorno
Temperatura, função
Aparência
Preço, destino, idade
Sentido
As coisas não têm paz
As coisas

© Cíclope (Warner-Chappell Edições Musicais Ltda.) / Gegê Produções Artísticas Ltda.

Retirado daqui.
Amigos:

Este blogue sofreu de uma morte precoce e agora ressuscitou. Infelizmente perderam-se algumas características que vou tentar recuperar...

Que tal andou este país abreviado por estes dias?


Última hora!


É tão previsível este nosso Bush...
Leiam bem mais esta aqui em baixo, que se apresenta na formulação da TSF, e digam lá se nós não vamos a caminho de um estatuto Porto Riquenho?
Viva Portugal! Ó Lula deixa-me lá ser Brasileiro....


TPI
EUA «castigam» quem não os torna «imunes»
Os EUA retiraram ajuda militar a 35 países que não assinaram em tempo útil acordos que previam a protecção de cidadãos norte-americanos eventualmente perseguidos pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), anunciou o Departamento de Estado. O porta-voz do Departamento de Estado, Richard Boucher, lembrou que o Congresso norte-americano tinha fixado o dia 1 de Julho como prazo-limite para a assinatura desses acordos.
A Casa Branca anunciou também hoje que 16 países não verão as ajudas suspensas ou porque já assinaram os acordos, faltando apenas ratificá-los localmente, ou porque são considerados aliados suficientemente importantes. De acordo com a lista divulgada pelo Departamento de Estado, são os seguintes os países «castigados»:

África:
Benin, Republica centroafricana, Lesoto, Malawi, Máli, Namíbia, Niger, África do Sul, Tanzânia, Zâmbia.

Europa:
Bulgária, Croácia, Estónia, Lituânia, Letónia, Malta, Servia-Montenegro, Eslováquia e Eslovénia.

Continente americano:
Antígua, Barbados, Belize, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Dominica, Equador, Paraguai, Peru, São Vicente e Grenadine, Trindade e Tobago, Uruguai, Venezuela

Ásia-Pacífico:
Fidji e Samoa.

O montante das ajudas em causa orçava 46,7 milhões de dólares para o ano fiscal em curso, disse a mesma fonte.
Os EUA sempre se opuseram ao TPI, que tem como missão julgar crimes de guerra e contra a humanidade, considerando que existe o risco de uma Justiça politizada que pode pôr em causa a posição de militares norte-americanos em missões no estrangeiro.
A União Europeia, recorde-se, aprovou um acordo em Setembro passado, concedendo imunidade aos diplomatas norte-americanos perseguidos pelo TPI que se encontrem em território da União.
O espanto de me espantar...


Espiem só esta notícia da TSF - logo a seguir à indignação dos cidadãos que querem elevar a Tocha a concelho:
"ALEMANHA
Conduzir a fazer sexo não é crime
Um cidadão alemão que estava a fazer sexo enquanto conduzia num auto-estrada foi condenado, não por estar a fazer sexo, mas por ter fugido depois de bater num sinal.

15:54
01 de Julho 03

A situação caricata deve-se a um «vazio legal». Segundo o porta-voz de um tribunal de Colónia, o legislador não admitiu essa possibilidade: conduzir e fazer sexo ao mesmo tempo.

Era o que estava a fazer um cidadão alemão e viajava a cem quilómetros hora.

Foi condenado a pagar uma multa de seiscentos euros porque bateu num sinal e fugiu. Teve ainda de pagar mais quatrocentos euros pela reparação da sinalização."

Se a moda pega lá vamos ouvir atentamente o Sub-chefe Silva da Brigada de Trânsito com algo do género:
"Pedimos aos senhores automobilistas que conservem as distâncias de segurança, adaptando a velocidade de condução ao estado do piso e às condições meteorologicas e acima de tudo usem sempre o preservativo e o cinto de segurança".

ANTES DA DENTADA



Olá! À terceira é de vez. Depois da citação de ontem que se lê ali em baixo e da algo bizarra "carta" de apresentação do primeiro dia - ó pró post de quarta- feira - surge mais um cromo na blogo-esfera a falar na primeira pessoa. Espreitados menos de 10% dos blogues em português (de Portugal) o balanço é bom e não enjoa. É certo que andam muitos em questões existênciais mas vê-se pensamento, sente-se paixão. Há vida nesta galáxia!
Caros blogueres muito gosto!
Pela parte que me toca vou espreitar mais um pouco " ver os blogues passar" como se escrevia há dias no Metrobloguitano.
No passado Sábado, a condutora do metrobloguitano falava-nos de "(...) uma miúda que acorda a meio da noite a chorar. Desperta de um pesadelo. Era um pesadelo estranho, como uma espécie de forma oval e vazia que lhe crescia dentro da boca até quase a sufocar.(...)".
A blogo-esfera exorciza?
Deixa-me cá esperimentar...


A DENTADA



O vulto, com clara silhueta humana, entrava no quarto com muitas cautelas, lentamente. “Talvez não me veja. Vou ficar quietinho” pensava nas primeiras vezes, no entanto, invariavelmente, acabava por fazer qualquer roído e, então, a figura ganhava contornos, iluminada por uma misteriosa luz baça, suficiente para mostrar uma carantonha humana de intenções perfeitamente estampadas. Não era um ladrão, era alguém que sabia bem ao que vinha: vinha à procura do menino para lhe fazer mal.
Após breves momentos em que se ocupava de tentar perceber quais os motivos da anunciada malvadez, a pequena cabecinha do menino começava a debitar, a uma velocidade impressionante, planos de fuga ou de combate. Pensava atordoá-lo atirando-lhe com o candeeiro da mesinha de cabeceira, mas sempre que se lembrava deste expediente era já impossível ter sucesso com a figura tão perto. Decidia então que saltaria da cama esquivando pelo lado oposto, passando por debaixo e fugindo depois do quarto, mas... nunca conseguia mais do que virar o pescoço para o lado. Estava completamente paralisado e na garganta restava-lhe apenas uma língua enorme que quase o sufocava.
Apercebida a vulnerabilidade total, era altura do sorriso convencido do tratante que aproveitava para fazer a última aproximação. No momento seguinte, tinha já as suas mãos no pescoço do menino, tal qual como da última vez. A cada nova tentativa, o menino convencia-se que estava a chegar mais perto dos seus limites. Da última vez quando tinha a certeza que já não conseguiria resistir até ao momento estabelecido do climax onírico em que o monstrengo desapareceria, o menino teve muita sorte. Devido a um incêndio nocturno que houve na praceta, foi acordado pela mãe, precisamente no último fôlego. Mas como será hoje?
As mãos apertam, apertam e esperam pelo último estertor, que teima em demorar. Finalmente, a vítima tem uma fortíssima convulsão, dá um peido e queda-se. Vence o mal? Não vence! O menino fingira para poder recuperar o fôlego, imitando uma cena que vira no filme do dia anterior, oferecida providencialmente pela televisão. Mas o malvado apercebe-se, pouco depois, do palpitar incontido da vítima e o seu rosto transfigura-se totalmente; neste momento, o sonho deixa de ser a simples repetição de todos os outros. O rosto da besta é agora raiva, uma raiva que leva as mãos de novo à garganta do menino. E leva, de facto leva, leva com uma valente dentada em um dos dedos! Tamanha a valentia que a dentada é decepadora. A cena é de espanto entre os dois, um absurdo que só os sonhos nos permitem: o menino revela um interesse quase científico pela morfologia do cepo - a secção do dedo mostrava vários anéis em diversas tonalidades de cinzento, com um central muito claro, quase luminoso- o monstrengo passa da estupefacção a um gesto de pânico e depressa desaparece quando é finalmente acossado pelo menino que salta da cama ao pontapé. Termina o sonho e o menino acorda.

Não dormiu mais a pensar em todo este sonho, na história de todos estes sonhos. Vencera o papão ainda que não lhe soubesse sequer esse nome universal, ainda que não se soubesse apenas um entre muitos outros meninos. Talvez este tivesse sido um dos momentos mais importantes da sua vida, um momento que recordará inúmeras vezes nas mais variadas ocasiões, quase sempre com espanto.

Até breve.
"(...) Entrar na blogosfera, onde não existem hierarquias e todos os «bloggers» estão em pé de igualdade, exige coragem e humildade. Coragem porque não é fácil sobreviver num meio em que as polémicas são permanentes e agressivas, a troca de argumentos exige boa preparação teórica e o nível médio da escrita é francamente elevado (já para não para falar do escrutínio apertadíssimo feito pelos leitores, nas áreas de comentário). Humildade porque nos apercebemos todos os dias que há pessoas, nomeadamente as que não têm acesso aos jornais, que sabem mais do que nós, são mais cultas do que nós, estão mais bem informadas do que nós e escrevem melhor do que nós. De resto, essa foi uma das principais lições que aprendi nestes seis meses de blogosfera, juntamente com a constatação de uma inesperada generosidade «inter pares». (...) José Mário Silva
[rasp-rasp] Imagine aqui o limpa-pés à porta desta sua casa: "Seja benvindo quem vier por bem!"

A casa por enquanto não tem tecto, apenas umas mantas espalhadas pelo chão em roda de um pequena fogueira. Há uma chaleira para chá e uma cafeteira para café, faltam chicaras, o dito chá, café... há apenas um resto de açucar, nada de adoçantes.

[Olá!] Eis agora o tipo que foi limpar um bocado de mato para acender o lume: Vive em Lisboa e arranjou este bocado de terreno baldio. Trouxe apenas um antigo tapete da capital que vai melhor com a decoração algo rústica deste alojamento. O tapete tem qualquer coisa de familiar que lhe dá conforto num lar provisorio..dá jeito em tão extraordinario ambiente.

Está sentado numa das mantas a ler uma carta...